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As seis práticas para desenvolver a capacidade inovadora do empreendedor

A inovação se tornou a chave-mestra do empreendedorismo. Mas, existe uma fórmula simples para cultivar hábitos e práticas que possam desenvolver um comportamento inovador e propício à criatividade? No livro As 10 Faces da Inovação, Tom Kelley e Jonathan Littman defendem que para gerar inovações significativas é preciso observar e compreender o comportamento de seus clientes.

Na obra, Kelley — consultor da icónica empresa de design IDEO — aborda as dez personas de uma empresa que estimulam o pensamento criativo e que superam o negativismo capaz de sufocar a criatividade. Entre os perfis detectados pelo autor, figuram o antropólogo, o saltador de obstáculos, o arquiteto de experiências e o polinizador.

Nesse artigo, abordo a persona preferida de Kelley: o antropólogo. Na percepção do especialista em inovação, a preferência acontece porque essa personalidade traz novos conhecimentos e insights ao observar o comportamento humano e desenvolver profunda compreensão de como as pessoas interagem de maneira física e emocional com produtos, serviços e espaços.

Em entrevista, ele contou que descobriu esse perfil relativamente tarde na carreira; esse encontro aconteceu quando iniciou os trabalhos na IDEO e a equipe era formada por engenheiros — testando os produtos, fazendo-os cair a dois metros de altura para avaliar a durabilidade.

Em 1991, quando trouxeram um grupo de antropólogos, eles sentavam ao lado de lagos e riachos e observavam crianças pescando; depois voltavam e instigavam a equipe a pensar se o produto era realmente útil. “Percebi que tínhamos ótimos técnicos para resolver problemas, mas precisávamos saber qual problema resolver. O antropólogo é muito bom em sair a campo e encontrar o cliente com problemas; achar um humano que não está tendo uma boa experiência com o produto que desenvolvemos. Um antropólogo identifica o problema e os técnicos solucionam”, afirma o especialista.

Como líder em inovação, Tom Kelley visitou mais de 30 países; como executivo, liderou na IDEO áreas de desenvolvimento de negócios, marketing, recursos humanos e operações. Hoje, membro-executivo da Haas School of Business da UC Berkeley, tornou-se uma voz global potente na prática de colocar o ser humano no centro do processo.

Com afinidade maior com a persona antropólogo, ele destaca alguns hábitos desses profissionais que podem inspirar os empreendedores e empreendedoras a desenvolverem a criatividade e inovação no cotidiano do negócio.

Mesmo com muita base educacional e experiência profissional, as pessoas que exercem o papel de antropólogo demonstram disposição pouco comum para deixar de lado o que “sabem” e olhar além das tradições — e dos próprios preconceitos. São pessoas que cultivam a sabedoria de observar com a mente aberta.

São pessoas que não julgam — observam e demonstram profunda empatia. Quem estuda o comportamento humano durante toda a vida desenvolve um amor genuíno, indissimulável por observar e conversar com pessoas. As habilidades e técnicas da antropologia cultural podem ser aprendidas por qualquer um, mas os profissionais que se sentem atraídos para esse papel o consideram, em geral, intrinsicamente recompensador — o que é outra maneira de dizer que amam o próprio trabalho.

Os currículos das escolas de negócio das melhores universidades e o treinamento no trabalho no mundo das empresas focam o ensino no exercício das habilidades analíticas do lado esquerdo do cérebro. Aguçam os poderes do raciocínio dedutivo. Os antropólogos, ao contrário, não têm medo de se basear nos próprios instintos; eles desenvolverem hipóteses sobre as raízes emocionais do comportamento humano observado.

Todos conhecem aquele sentimento de déjà vu — a forte intuição de já ter visto ou experimentado algo antes, mesmo que jamais tenha deparado com a mesma coisa. Vuja De é o oposto e se trata do senso de ver algo pela primeira vez, mesmo quando já se tenha observado a mesma coisa ou situação muitas vezes antes. Aplicando esse princípio, os antropólogos desenvolvem a capacidade de “enxergar” o que sempre esteve lá, mas nunca foi realmente percebido. Estamos falando daquilo que os outros não conseguiram ver ou compreender, porque pararam de olhar muito cedo.

Os antropólogos trabalham um pouco como romancistas ou comediantes. Eles acham que as próprias experiências cotidianas contêm material com potencial — e anotam as ocorrências e situações que os surpreendem, sobretudo coisas que parecem sem sentido. As listas de incômodos se concentram no negativo, ou seja, nas coisas que o incomodam; as carteiras de ideias abrangem conceitos inovadores que possam ser imitados e problemas a serem resolvidos. Essa ferramenta pode aguçar a capacidade de observação e as habilidades como antropólogo.

Antropólogos buscam ideias onde é menor a probabilidade de que sejam encontradas: antes de os clientes chegarem, depois que saem, mesmo no lixo. Procuram onde o aprendizado se oculta; olham para além do óbvio; e buscam inspiração em lugares inusitados.

Na minha percepção, assumir esses hábitos e comportamentos — e adotar uma mentalidade de principiante –é fundamental em todos os momentos do ciclo de vida do empreendedor. Nesse contexto volátil que vivenciamos, marcado por rápidas mudanças, esse comportamento torna-se vital, não somente para que o negócio fique de pé, mas para que cresça e prospere, tanto financeiramente como no impacto social gerado.

Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia. Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor — Estadão PME.

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