A economia donut, os limites planetários e os negócios de impacto social

Um modelo econômico simples, ambicioso, revolucionário e original é a proposta da economista Kate Raworth, da Universidade de Oxford. No livro Economia Donut: sete maneiras de pensar como um economista do século 21, ela defende a ideia de que devemos incluir os limites planetários na concepção de um novo modelo de desenvolvimento socioeconômico. A crítica publicada pelo The Financial Times apontou que a obra é “uma tentativa admirável de expandir os horizontes do pensamento econômico”. Estou em pleno acordo e, na minha percepção, a economista apresenta uma teoria que está em plena consonância com os negócios de impacto social.

Em linhas gerais, a economista britânica defende uma mudança de paradigma que passa por entendermos que o modelo econômico vigente está ultrapassado e não responde aos grandes desafios contemporâneos. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, concedida em 2020, ela ressalta a necessidade de transformarmos o capitalismo em um sistema sustentável tanto do ponto de vista social quanto ambiental.

O bem-estar do ser humano estaria em primeiro lugar, ou seja, à frente de sistemas que perseguem o crescimento econômico infinito e desumano. No modelo Donut, ela associa a economia ao formato de uma rosquinha, no qual o aro interno representa o alicerce social (serviços e produtos como alimentos, saúde e habitação), enquanto o externo está associado ao limite ecológico do planeta. No espaço entre um e outro, vemos um ambiente seguro e justo para a humanidade viver; o buraco interno se refere às pessoas que não têm acesso ao básico para subsistir.

Nesse novo modelo, a economia é considerada próspera quando todas as bases sociais são atendidas sem ultrapassarmos nenhum dos limites ecológicos, tais como mudanças climáticas, acidificação dos oceanos, poluição química, poluição por nitrogênio e fósforo, excesso de uso de água doce, danificar a terra, perda de biodiversidade, poluição do ar, destruição da camada de ozônio, entre outros. O recado da economista de Oxford é claro: o desafio da humanidade para o século 21 é atender e incluir todos dentro das possibilidades do planeta, ou seja, as fronteiras sociais e planetárias devem nortear a nossa busca pela extinção das desigualdades.

Acredito que os negócios de impacto socioambientais têm muito a contribuir com esse novo olhar para o desenvolvimento sustentável. Podem, inclusive, disseminar e construir boas práticas — via produtos e serviços — para que as companhias criem agendas positivas na temática, sobretudo, porque as questões climáticas e a desigualdade estão intrinsecamente conectadas. O que quero dizer? Muitas vezes, as pessoas tomam decisões que desrespeitam o meio ambiente por uma questão de sobrevivência ou falta de informação.

Para citar um exemplo, acredito ser emblemático um case do Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê) — uma organização sem fins lucrativos dedicada à conservação da biodiversidade em bases científicas. A equipe percebeu que para atingir a missão, que está relacionada à preservação de espécies animais e vegetais, a organização precisava contar com o apoio da população de alguns territórios. Ou seja, o Ipê deveria oferecer uma alternativa de geração de renda às comunidades; e de envolvimento prático com a biodiversidade. Com essa bússola, criaram uma Unidade de Negócios Sustentáveis com projetos que aliam geração de renda e práticas educativas sobre os temas importantes na agenda ambiental. Ou seja, renda, educação e biodiversidade caminhando juntas.

Embora tenhamos uma longa jornada pela frente para construir um novo capitalismo, sabemos que as soluções inovadoras e com real propósito — desenvolvidas por empreendedores sociais — são grandes aliadas desse processo.

Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia. Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor — Estadão PME.

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